Como e quando ressurgiu a onda das barbearias e barber shops?

PorRafael Nardini 30 de setembro de 2017

Você é capaz de lembrar qual foi sua última passada em um salão para cortar o cabelo? E quem foi que chegou primeiro para dizer que havia visitado uma barbearia e já não via mais sentido em voltar ao cabeleireiro?

Depois de um doloroso tempo longe do auge, as barbearias beiram quase uma década no topo novamente. Mas quem era capaz de imaginar tamanha capacidade de mudar nossos costumes? Aliás, você deve se lembrar muito bem daqueles amigos que, de um dia para o outro, passaram a preservar os pelos do rosto, a usar óleo para deixar a barba no mais perfeito estado e a ter um barbeiro para chamar de seu.

Tudo isso tem um bocado a ver com as barbearias. E é sobre esse domínio silencioso que falamos nas próximas linhas. Mas também sobre novas opções, como as barbearias repletas de cervejas artesanais.

Diferença entre barbearia e cabeleireiro

A primeira grande diferença entre salões e barbearias é o público. Os salões são usados na maior parte por mulheres, mas fazem também o atendimento masculino. Ou seja: é um espaço misto, mas onde o principal foco é a atender as demandas das mulheres.

Passamos aí para os profissionais. Se o atendimento é mais feminino, naturalmente os profissionais do salão também estarão mais preparados para tinturas, alisamentos e relaxamentos do que para uma boa e velha navalha. É bem comum que um mesmo profissional faça tudo e mais um pouco em um só dia de trabalho num salão.

Na barbearia, a coisa muda de figura. Enquanto nos salões, os especialistas estão mais voltados para cortes de cabelos longos, os barbeiros normalmente andam com a navalha e a máquina de aparar cabelo já nos bolsos dos jalecos.

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Foto: Istock/Getty Images

É esperado, portanto, que os barbeiros sejam ótimos com cortes de cabelo mais curto, que acabaram classificados como cortes masculinos, mais estruturados e dependentes das máquinas. O uso da tesoura é apenas uma das partes do serviço, quando boa parte do cabelo está pronto ou quase pronto, servindo para aparar as pontas do topete, já que as laterais foram aparadas à máquina.

Nos salões, homens e mulheres trabalham lado a lado. Nas barbearias, os profissionais são quase que exclusivamente homens, sempre prontos para cortes de barba, toalhas quentes e talco no pescoço do cliente. É lá que você deve ter se acostumado a ouvir termos como fade, undercut ou razor part. Muitas barbearias deixam bem claro que não fazem alguns tipos de cortes, enquanto outras são menos conservadoras e tentam unir os clássicos ao contemporâneo.

Barbearia vintage

O que denominado hoje como vintage é o que foi exatamente a moda entre as décadas de 1950 e 1960 nos Estados Unidos. Claro, o seu barbeiro não tinha os braços forrados de tatuagens, mas a música no rádio já era rockabilly, as tesouras, as navalhas e as toalhas quentes estavam lá, espalhadas pelos barber shops da América. No Brasil, as barbearias tinha os cortes, mas não o mesmo jeitão hipster que encontramos hoje por bairros como Vila Madalena, em São Paulo, e Botafogo, no Rio de Janeiro.

O vintage fica muito também por conta das cadeiras, muitas já beirando os 100 anos de uso. Repare nas placas de metal que ficam no suporte para os pés. O piso, as roupas, mas também um chamado modo de viver, são os principais motivos de falarmos em barbearias vintage.

Como surgiu a onda das barbearias

Depois de serem quase que completamente abandonadas entre 1980 e 1990 e verem o crescimento dos salões unisex tomarem todo o espaço, as barbearias voltaram a mostrar poderosos sinais de retorno. Ao que tudo parece, a onda ainda não atingiu o pico nem deve desaparecer de uma hora para outra.

Não há uma data crucial para considerar o retorno das barbearias (as tradicionais barber shops americanas) como uma realidade, mas há registros de uma crescente onda a partir de 2008, na Costa Oeste americana, de Los Angeles até Seattle. Do outro lado, na Europa, o mercado das barber shops voltou a aquecer em 2010. Por aqui, há registros de começo de febre em 2011 e 2012, já com a abertura de algumas das mais importantes franquias de barbearias de São Paulo e Rio de Janeiro.

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Foto: Istock/Getty Images

Curiosamente, o ressurgimento das barbearias vem paralelo ao termo metrossexual, que se tornoupalavra fácil no mundo inteiro. Os homens começam a ser alvos cada vez mais constantes das grandes marcas de beleza e dos investimentos em publicidade. Neste período, a barba também voltou a ser valorizada e usada pelos mais variados homens, de CEOs de empresas a atletas e artistas de Hollywood.

Também na virada entre os anos 2000 e 2010 surgiu a série Mad Men, sucesso mundial de público e máquina de ganhar os mais importantes prêmios da indústria. Lá estavam os cortes de cabelos clássicos, as pomadas, os géis e as barbas milimetricamente bem aparadas, ajudando, ainda que não intencionalmente, a onda das barbearias a tomar ainda mais forma. O Bureau of Labor Statics, nos Estados Unidos, prevê um crescimento de 10% para as atividades dos barbeiros na próxima década, entre 2014 e 2024.

Barbearia com cerveja artesanal

A toalha quente, a navalha, a máquina e… a bebida! Foi naturalmente nos Estados Unidos que os barbeiros entenderam que dava para incluir uma carta de cervejas especiais e artesanais entre uma tesourada e outra.

Mohawk Matt, um dos fundadores da rede Bolt Barber, febre em Los Angeles ainda antes do anos 2010 chegar, foi um dos primeiros a começar a explorar o comércio das bebidas. “Salões são feitos e desenhados por mulheres para mulheres, então os caras vêm aqui e eles se sentem confortáveis, eles podem relaxar”, conta Matt, entrevista à ABC, anos atrás. Pensando nisso, Matt incluiu em sua rede os “Big Sundays” (Grandes Domingos, em tradução livre), quando os clientes podem fumar charutos e beber cerveja e uísque.

A onda, claro, já chegou em terras brasileiras. A Barbearia do Zé, com uma concorrida unidade em Botafogo no Rio de Janeiro, recebe seus clientes com uma fichinha, que pode ser trocada por chope, café expresso ou energético.

Thompson de Oliveira Schemes, 39 anos, pulou fora do mercado financeiro para criar a D.O.N. Barber Beer, em 2014. De lá para cá já são cinco unidades espalhadas pela capital fluminense. Para acompanhar os cortes de barba e cabelo, uma variada e bem preparada carta com 90 rótulos de cervejas artesanais.

Em São Paulo, a variedade é apenas um dos pontos fortes da chique Barbearia Corleone. São impressionantes 450 rótulos, capaz deixar muitos supermercados para trás. No espaço na rua Dr. Renato Paes de Barros, no Itaim Bibi, os clientes podem ainda degustar variados drinks e outros tipos de bebidas que preferir.

A Barbearia Sport Club é mais acanhada nas opções de cerveja artesanal, mas não deixa para trás no conjunto da obra. São duas unidades (Mooca e Jardim Europa), onde os barbudos podem escolher entre 40 opções de cervejas, incluindo aí uma IPA que leva o nome da casa. Com um nome desses, claro que o futebol estaria presente. Que tal então unir cerveja de boa qualidade ao indefectível FIFA no videogame? Isso é que barba bem feita.

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