‘O medo de ser artista e a vontade de ser músico’

Por Rafael Cortez 28 de Março de 2018

Há 20 anos eu tinha medo de ser artista. Tanto que eu trabalhava com arte, mas nos bastidores. Era produtor de teatro e não ator. Era produtor de TV e não aparecia no vídeo. Tudo porque eu tinha medo de ser artista — achava que eu ia passar fome. Me disseram que ia ser assim e eu simplesmente acreditei. Se eu fosse dar um conselho para o Rafael de 20 anos atrás, diria isso: não tenha medo de ser artista.

Há 10 anos eu já tinha certeza que queria ser produtor de conteúdo. A partir daí, comecei a trabalhar com humor. Hoje, aos 41, sinto que estou em um processo de reciclagem pessoal. Eu sou muito grato por ser comediante, de verdade. Mas daqui a dez anos eu quero ser mais conhecido como músico e não como humorista. Eu fui muito longe como comediante, mas não consegui ir longe como músico ainda. E a música veio antes do humor.

Comecei a mexer com música aos 17 anos — o humor veio muito depois. Eu não falo isso porque não gosto de humor, mas é aquela coisa: já absorvi tudo o que eu tinha para ter absorvido. Fiz TV, viajei o Brasil inteiro, ganhei dinheiro, comprei minhas coisas…Não sei se poderia aproveitar mais.

A verdade é que eu devo muito ao meu lado músico. Ela é capaz de curar muitas coisas, um lado que me deixa pleno. Quando eu estou em parafuso, costumo me soltar tocando violão. É uma terapia para mim. Quando estou de folga não fico vendo stand up na televisão — eu estou ouvindo ou tocando música.

Eu sou violonista, então quase sempre estou escutando violonistas clássicos. Também gosto de MPB — mas da antiga: Chico, Caetano, Bethânia…Mas também curto outras coisas, tipo Public Enemy. Ouço Public Enemy desde 1988, eles me ajudaram a me tornar quem eu sou hoje.

O engraçado é que, mesmo tendo essa relação afetiva com a música, ninguém da minha família toca. Tenho 11 primos, sete tios, a família Faria (materna) é enorme, a Cortez (paterna) também…E ninguém — ninguém mesmo — nem da minha geração, nem da anterior e nem, provavelmente, da futura é músico. Não tive influência da família, apesar de todo mundo sempre consumir música. Sempre teve um rádio ligado na minha casa — acho que só meus pais consomem rádio hoje em dia. Mas sinto que a música foi quase um chamado, sabe? E sinto que esse chamado ainda não foi totalmente explorado. Enquanto a música não chega para ocupar minha carreira totalmente, sigo aqui feliz da vida tentando fazer você rir.

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