Por dentro do futebol americano #3: a prática do esporte no Brasil

PorPedro Katchborian 28 de novembro de 2017

A cidade de Timbó, em Santa Catarina, conta com pouco mais de 30 mil habitantes. Chamado de Pérola do Vale, o município está longe de ser um dos mais importantes do país. No entanto, o local chama a atenção por ser uma das capitais de futebol americano no Brasil. Se nos Estados Unidos Tom Brady comandava a maior virada da história do Super Bowl em 2016, em um dia até com show de Lady Gaga, o Timbó T-Rex vencia o modesto Brasil Bowl, final do campeonato nacional de futebol americano, em jogo contra o Flamengo FA.

Longe do glamour da NFL, a Superliga Nacional é a mais importante competição do Brasil. Mas isso não significa que o torneio conta com muito investimento. A audiência do futebol americano no país só sobe por conta da NFL (veja aqui quais são as regras do esporte aqui) — cresceu incríveis 800% de 2013 a 2016 –, mas o interesse não reflete em grandes voos para a prática do esporte por aqui, que ainda sofre com a falta de verba e profissionalismo. Felipe Laurence, dono do perfil no twitter O Quarterback, um dos mais antigos sobre o esporte no país, explica que há um caminho muito longo a ser percorrido.

Sobre a organização dos torneios, Laurence não poupou críticas. “Vejo com maus olhos. Você não tem uma administração profissional dessas competições”, diz. “Teve uma certa tentativa de profissionalização, mas não deu certo. Existe muito potencial, mas ele é desperdiçado”, afirma. Não só os torneios — os times que participam das competições também são amadores em sua maioria. “Boa parte dos times da BFA (Brasil Futebol Americano, confederação brasileira) da primeira divisão não tem CNPJ. São amigos que se juntaram e começaram a jogar”, explica.

O ano de 2016 foi importante para a prática no país, pois o torneio nacional foi unificado. Até 2015, haviam vários campeonatos diferentes no Brasil, o que acaba fazendo as competições perderem força. Com o fim do Torneio Touchdown, a BFA organizou a Superliga. Ainda assim, o amadorismo fala mais alto.

Apesar da dificuldade, há equipes que tem feito um trabalho interessante. Além do Timbó T-Rex, que conta com média de público de mil pessoas por jogo, outros time destacado por Laurence é o Sada Cruzeiro. “Trouxe um baita técnico, tem jogadores americanos e está pagando bem”. O Jaraguá Breakers e o Corinthians Steamrollers são outros lembrados, embora o último tenha perdido o investimento.

Para Laurence, o principal problema é a captação de recursos. “Primeiro você precisa arrumar o amadorismo e mostrar que o investimento precisa ser de médio a longo prazo — ou não adianta, será algo localizado, vai ter investimento por 6 meses e não vai dar retorno”, completa. “Não chegaremos nunca no profissionalismo da NFL, mas precisa ter um mínimo para que propicie condições para o esporte se manter. O que vemos no Brasil é um reinício e não uma continuidade.

Se a audiência da NFL chega aos milhões por aqui, significa que o público está pronto para consumir o esporte que é praticado nacionalmente — mas ainda não o faz de maneira significativa. “Precisa existir um trabalho de conscientização do público e isso passa pela profissionalização dos times”, diz Laurence. “Muitos times não divulgamos os seus jogos…É muito difícil de conseguir informação”, conta. Ele explica que costumava divulgar horários e locais de jogos nacionais, mas parou pela falta de informação. “Já aconteceu de pessoas me falarem que eu dei a informação e não tinha espaço para o público”, afirma.

Futebol americano no Brasil: nível dos atletas tem subido

Mesmo com uma organização falha, o nível dos atletas tem subido desde 2010. “Existiu uma evolução muito grande, mas estamos chegando em um teto quando falamos sobre técnica. Fisicamente os atletas tem evoluído, a maioria tem um acompanhamento sério, mas o desempenho técnico está ficando aquém”, conta. Para sair desse teto, Laurence acredita que a chave pode ser trazer técnicos de fora — seja da Europa ou dos Estados Unidos. “A maioria dos treinadores por aqui não tem formação, não sabem conduzir um treino. Um técnico estrangeiro pode distribuir conhecimento”, afirma.

A história de Cairo Santos, kicker do Kansas City Chiefs, da NFL, pode inspirar muitos jovens a trilharem o caminho da bola oval. No entanto, Cairo é um ponto fora da curva. “Não vamos jogar um cara direto do Brasil para a NFL”, diz Laurence. “Precisamos fazer um trabalho de base para levar jogadores para fora logo no colegial, depois ir para o universitário e aí para a NFL. É um processo longo”, conta.

A comparação que pode ser feita é na Alemanha. Hoje existe uma liga nacional forte no país europeu e o investimento fez alguns atletas chegarem a NFL. “Mas a Alemanha pratica futebol americano desde a década de 70. Começamos a jogar o esporte aqui no Brasil há apenas 10 anos. Vai demorar até chegarmos a outro patamar”, completa.

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