Concussões e demência: qual é o futuro do futebol americano?

PorPedro Katchborian 3 de outubro de 2017

O campo é o lugar perfeito para morrer”. A frase poderosa é de Jamal Adams, novato no time do New York Jets, da NFL. Inicialmente, a declaração parece uma metáfora, uma demonstração de comprometimento que qualquer torcedor orgulhoso gostaria de ouvir. Mas o contexto muda toda a interpretação: inconformado com as novas regras da liga, Jamal Adams, que é um jogador de defesa, disse que a iniciativa da NFL em proteger a saúde de seus jogadores acaba priorizando os atletas do ataque. Por ele, tudo continuaria como está: “Sou a favor de tornar o jogo mais seguro. Mas como um jogador de defesa, não sou um grande fã [das mudanças nas regras]”, disse o jogador de 21 anos.

A vista grossa da NFL em relação às regras tem motivo: cada vez mais estudos mostram que o futebol americano tem consequências desastrosas para a saúde de seus atletas. Uma pesquisa com 111 atletas da NFL já falecidos mostrou que 110 – sim, 110 – desenvolveram uma doença chamada Encefalopatia Traumática Crônica (ETC), um tipo de demência causado pelos repetidos impactos na cabeça. E as notícias são ruins para Jamal Adams: o atleta joga como safety, posição que, segundo a pesquisa, é a terceira que mais sofre com a condição.

A comprovação com pesquisas causou grande impacto na mídia, assim como o filme Um Homem Entre Gigantes, que conta a história do Dr. Bennet Omalu (interpretado por Will Smith), patologista forense que diagnosticou um atleta com ETC e que tentou chamar a atenção para o problema. O risco, agora mais do que evidenciado, fez muita gente coçar a cabeça: será que um esporte tão violento e ligado a uma doença tão séria vai sobreviver? Qual é o futuro do futebol americano?

Publicações já debatem o fim para o esporte

A NFL continua lá: milhões de fãs nos estádios e fora dele. O Super Bowl segue como um dos maiores espetáculos do planeta. Mas isso não significa que esteja tudo bem: algumas publicações já debatem um possível fim do esporte em um futuro não tão longe assim. A Sports Illustrated, uma das revistas mais respeitadas nos EUA, fez um texto, em 2016, chamado: “E se o futebol americano simplesmente…Morresse?”.

No artigo, Austin Murphy escreve como se estivesse no futuro. “É domingo, dia 7 de setembro de 2036. (…) O que parecia ser invencível, o negócio colossal da NFL entrou em colapso no fim dos anos 2020 pelos litígios, problemas de seguro e um declínio dramático de jovens jogando o esporte. O cancelamento de centenas de programas nas universidades – resultado de seguros exorbitantes depois de vários processos – deixou jogadores famintos”. O cenário retratado por Murphy parece exagerado à primeira vista, mas vários corroboram com a possibilidade da prática se tornar cada vez mais incomum.

Este outro artigo, da Mic, mostra por que o futebol americano não será o esporte mais popular dos EUA até 2050. Um dos motivos são as mudanças de regras: para a publicação, fãs gostam de ver tackles fortes e jogadas duras. Uma NFL mais leve pode fazer muita gente perder o interesse. Além disso, parte dos jogadores podem, sabendo das consequências do esporte, ir para outro caminho. Em 2013, um dos prospectos mais altos para o draft acabou optando por jogar futebol e abandonar o futebol americano.

Quais seriam as possíveis soluções?

O problema com a violência do esporte está muito relacionada ao capacete, que é usado como uma arma na hora de dar tackles. Alguns especialistas dizem que, no futuro, a NFL terá que adotar equipamentos parecidos com o do rugby. Dessa maneira, os jogadores irão ter menos ímpeto e vão dar tackles com menos violência.

Outra opção é ter capacetes que, de alguma forma, possam absorver o impacto causado pelas pancadas. E aí existe uma grande oportunidade de mercado: Uma das empresas dedicadas a modificar esse cenário é a VICIS. A vontade da empresa é reimaginar o capacete de futebol americano e reduzir o número de concussões — e eles já tem conseguido isso.

Depois de US$ 10 milhões de investimento, a empresa lançou o capacete Zero1, que tem uma estrutura macia por fora que se deforma e absorve o impacto. Segundo os fundadores da empresa, os capacetes atuais não focam no problema da concussão — eles são desenhados para evitar fraturas no crânio. O problema, por enquanto, é o preço: um capacete da VICIS custa US$ 1,5 mil ante US$ 400 do tradicional.

Mesmo assim, alguns jogadores já estão usando o capacete da empresa. Na temporada de 2017, atletas como Russel Wilson, do Seattle Seahawks, Alex Smith, do Kansas City Chiefs, e Jadeveon Clowney, do Houston Texans, já estão usando o capacete Zero1, que deve ter impacto positivo a longo prazo na vida desses atletas.

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